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Como a moda está sendo um veículo de crítica social e política, além de um produto de consumo

  • Foto do escritor: Thais Escalada
    Thais Escalada
  • 2 de abr.
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 19 horas

Marcas precisam performar valores para sobreviver no mercado. Estamos assistindo a um novo capítulo da moda ou a uma sofisticada estratégia de mercado?


Coleção Outono/Inverno 2026 de Rachel Scott para Diotima. Créditos: Diotima
Coleção Outono/Inverno 2026 de Rachel Scott para Diotima. Créditos: Diotima

A moda é dinâmica e reflete as mudanças no comportamento do consumidor ao longo dos anos, por ser uma forma de manifestação que retrata a sociedade. Atualmente, os desfiles passaram a incorporar discursos de forma explícita, abordando temas como guerra, identidade, crise climática e feminismo. Isso pôde ser visto entre os dias 15 e 16 de fevereiro, na coleção Antiautoritária da Diotima (Outono/Inverno 2026), da designer jamaicana-norte-americana Rachel Scott, que utilizou as roupas como veículo para uma crítica ao autoritarismo global.


Acessório que remete a poder e controle. Créditos: Galeria de fotos Diotima
Acessório que remete a poder e controle. Créditos: Galeria de fotos Diotima

Apesar disso, a moda nunca se limitou à superfície estética e ao consumo, estando sempre ligada a mensagens políticas desde a Antiguidade. Vestir-se continua sendo uma forma de expressar quem você é, de onde vem e a sua história.


A socióloga de moda Talita Souza discorre sobre períodos históricos que evidenciam a forte relação entre moda, poder e organização social. “A moda apresenta muitos contextos históricos, onde deixa de ser algo estritamente simbólico, estético ou estritamente funcional para transmitir uma mensagem política. Creio que até mesmo no período do Rococó, com a figura de Maria Antonieta, temos ali, uma mensagem política, pois por meio da indumentária e acessórios, transmitia a imponência e a importância do lugar que ocupava na corte francesa.”


Considerando o que foi apresentado por Talita, é possível analisar, em qualquer recorte histórico, distinções, significados e até mesmo o contexto vivido por cada comunidade por meio do vestuário. As roupas sofisticadas, os acessórios feitos de ouro e as coroas utilizadas pelos faraós serviam para destacar sua posição hierárquica e reforçar sua autoridade política.


Já na Roma Antiga, a toga de cor púrpura era destinada apenas a senadores e imperadores, pois o pigmento utilizado era raro e valioso, tornando-se símbolo de status e prestígio. Em muitos casos, usar roupas consideradas inadequadas podia até ser interpretado como desrespeito às normas sociais e ao próprio Estado. 


Na Idade Média e no Renascimento, a moda continuou funcionando como mecanismo de distinção social e controle. Em vários reinos europeus, foram criadas leis suntuárias que determinavam quais tecidos, cores e adornos poderiam ser usados por determinados grupos, especialmente pela nobreza e pelo clero. 


Enquanto isso, entre as camadas populares, o reaproveitamento de roupas era essencial. Ao mesmo tempo em que as vestimentas das elites representavam poder e privilégio, para os grupos mais pobres a moda também expressava criatividade, resistência e adaptação diante das desigualdades sociais.


Essa breve revisita aos séculos anteriores evidencia que a moda era consumida com base, principalmente, na funcionalidade, nos privilégios e nos protestos. No presente, com o impacto do capitalismo, da competitividade do mercado, da tecnologia, do consumismo desenfreado e das mudanças no comportamento humano, a composição do guarda-roupa ultrapassa as cores, os tipos de tecido e as formas de utilizar uma peça, alcançando também as marcas. Uma marca carrega consigo histórias e tradições, além de ditar identidades e estilos de vida, algo que antes não existia dessa forma.


Segundo o levantamento feito pelo Barômetro Edelman Trust 2024, analisa que 63% dos consumidores globais esperam que as marcas tomem posição sobre importantes questões sociais. Entre a Geração Z, esse número aumenta para 75%, indicando que as gerações mais jovens veem as empresas não apenas como fornecedoras de produtos e serviços, mas como agentes éticos e culturais. Resultando em um cenário em que, para sobreviver em um mercado movido pela reputação, construção de identidade e engajamento do público, as marcas passaram a incorporar discursos e valores em suas estratégias. Nesse contexto, surge a dúvida se estamos diante de uma transformação genuína no universo da moda ou apenas de uma sútil lógica de mercado.


Sob esse aspecto, cresce também o debate sobre o chamado “ativismo performático”, quando marcas utilizam discursos ligados a causas sociais, diversidade ou sustentabilidade como estratégia de imagem e aproximação com consumidores, sem necessariamente promover mudanças estruturais em seus processos internos.


A socióloga Talita, analisou essa métrica e acredita que a transformação cultural tem criado uma nova lógica de consumo, especialmente entre os jovens, que valorizam marcas alinhadas a questões sociais, éticas e sustentáveis. Ao mesmo tempo, existe uma contradição no comportamento do consumidor, que busca pertencimento e tendências momentâneas, consumindo também produtos de aplicativos asiáticos. Além disso, muitas marcas se posicionam socialmente, mas oferecem experiências acessíveis apenas a uma elite econômica, reforçando que essa mudança cultural abriu espaço para novas métricas e formas de consumo.


A socióloga especialista em moda declara: “Temos muitos consumidores, inclusive, jovens que se importam, de fato, em como o sistema da moda ou o sistema de mercado em geral, vem atuando mediante às questões sociais, desde a extração da matéria prima até a produção final, e quais as abordagens que as marcas possuem diante de assuntos que estão em pauta diariamente na sociedade global, mas em outra via, também acredito que exista a necessidade de engajamento, de pertencimento, de coletividade em utilizar as marcas, que não estão diretamente ligadas a uma transformação cultural e sim a um estilo de consumo do momento.”


Assim, a moda contemporânea continua ocupando um espaço ambíguo ao funcionar como ferramenta de expressão política e consciência social, mas também se consolida como parte de uma lógica de mercado baseada em reputação, identificação e consumo simbólico.

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