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37 anos de 'Pais e Filhos' e a saúde mental ainda é um problema dentro das casas brasileiras

  • Foto do escritor: Thaína Amorim
    Thaína Amorim
  • 7 de abr.
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 1 dia


A música Pais e Filhos, da banda Legião Urbana, mesmo após 37 anos de seu lançamento, continua despertando reflexões sobre conflitos familiares, incompreensão, sofrimento emocional e o silêncio dentro do ambiente familiar. Ao transformar a dor em poesia, o compositor Renato Russo constrói um discurso atemporal que permanece atual e ressurge como um diálogo urgente entre diferentes gerações de pais e filhos.


Com isso, convidamos Gabrielle Costa Sampaio, psicóloga clínica e pós-graduada em reabilitação cognitiva, para um bate-papo sobre as mudanças comportamentais, emocionais e sociais das gerações ao longo do tempo. Uma comparação entre a década de 1980 com os tempos atuais.


Capa do álbum Que País É Este, da banda Legião Urbana. Foto: Ricardo Junqueira
Capa do álbum Que País É Este, da banda Legião Urbana. Foto: Ricardo Junqueira
Confira a entrevista:

O verso “ninguém sabe o que aconteceu” pode indicar falta de diálogo. Qual o impacto do silêncio dentro das famílias na saúde mental?

 

Muitas vezes o silêncio em casa é confundido com paz, mas, na verdade, ele é um sintoma que nunca foi tratado. Quando o "ninguém sabe o que aconteceu" vira regra familiar, criamos um ambiente onde o sofrimento precisa ser vivido de forma isolada e solitária. É uma forma de invalidar a experiência do outro. Na clínica, vemos que onde não há fala, há sintoma, seja na ansiedade, na depressão ou no corpo que adoece porque não consegue colocar em palavras o que sente. É uma das dores mais latentes, como falar sobre algo que você nunca soube nomear?


Por que ainda é tão difícil falar sobre saúde mental dentro de casa, mesmo após tantos avanços no tema?

 

Porque informação não é o mesmo que educação emocional. A gente consome conteúdo sobre saúde mental no Instagram ou no YouTube, mas, no cotidiano de uma vida real, encarar a vulnerabilidade de um filho ou de um pai gera um desconforto gigante. Falar sobre dor exige que a gente olhe para as nossas próprias feridas. Muita gente ainda prefere o "sim, está tudo bem" do que o risco de se mostrar vulnerável ao outro. Mais uma vez caímos na mesma questão, como falar de uma dor que eu nunca aprendi a identificar?


A música mostra uma desconexão entre pais e filhos. O que mais contribui para esse distanciamento hoje?

 

Acredito que o grande vilão hoje é a tal da presença ausente, estamos dividindo o mesmo sofá, mas cada um em uma tela. Além disso, existe uma pressa em "resolver" o problema do outro em vez de apenas escutar. Os filhos param de falar quando sentem que tudo o que dizem será usado como lição de moral ou julgamento, e não como uma oportunidade de acolhimento e afeição.


Como os pais podem construir um espaço seguro para que os filhos se expressem emocionalmente?

 

Primeiro, entenda que seu filho não é uma extensão de você, ele é um indivíduo único, com o direito de ser quem ele quer ser, ele não precisa repetir as suas dores para "ser alguém melhor". Segundo, saiba que um espaço seguro não é aquele onde ninguém sofre, mas onde a dor tem permissão para existir. Pais precisam aprender a dizer "Eu não entendo exatamente o que você sente, mas estou aqui com você", é preciso menos interrupção, menos "no meu tempo era pior" e mais curiosidade genuína sobre o mundo interno do seu filho.


A música gravada na década de 80 ainda é muito ouvida e refletida, isso indica que a sociedade pouco evoluiu nessa questão?

 

A música continua atual porque as dores da alma humana são atemporais. Embora tenhamos avançado em diagnósticos e acesso à terapia, a estrutura emocional das famílias ainda patina na dificuldade de lidar com o que sai do controle. A sociedade evoluiu na teoria, mas na prática das relações íntimas, ainda estamos engatinhando na arte de validar e lidar com o que o outro sente.


A música retrata um caso de suicídio. Como a psicologia interpreta esse tipo de dor?

 

Interpretamos como uma dor que transbordou a capacidade de enfrentamento daquele indivíduo naquele momento. Não é um desejo de morrer, mas um desejo desesperado de interromper um sofrimento que parece insuportável e interminável. É o ápice do desamparo. Por isso, a psicologia foca tanto em criar redes de apoio. Ninguém deveria ter que carregar um peso desses sozinho, a psicologia se interessa pela sua dor e está aqui para amparar o seu medo.


O tabu sobre saúde mental dentro das famílias ainda é um problema ou hoje em dia é mais compreendido?

 

Ainda é um problemaço, mas com uma roupagem nova. Hoje falamos de saúde mental de forma genérica, mas o tabu aparece nas pequenas doses, no preconceito com a medicação, no medo de ser visto como fraco ou na negação de que alguém próximo precisa de ajuda. Entendemos o conceito, mas temos dificuldade em abraçar a realidade da doença dentro da nossa própria casa, é quase um "Eu sei que você está doente, mas não sei como te ajudar porque nunca me ensinaram como fazer".


Existe uma geração mais emocionalmente sobrecarregada?

 

Não diria mais, mas sobrecarregada de uma forma diferente. As gerações passadas lidavam com a sobrevivência e o silêncio por falta de conhecimento. A geração atual lida com o excesso de informação, de comparação e de uma cobrança por performance emocional. Hoje, não basta estar bem, você precisa parecer bem e ser produtivo, essa pressão constante de dar conta de tudo cria um cansaço mental que as gerações analógicas não conheciam nessa intensidade.

 

O que geralmente impede pais e filhos de conversarem abertamente sobre sentimentos?

 

O medo da perda de autoridade e a falta de ferramentas. Muitos pais acreditam que, se mostrarem vulnerabilidade ou ouvirem a dor do filho sem dar um "corretivo", perderão o respeito. Do lado dos filhos, existe o medo do julgamento ou de sobrecarregar pais que já parecem extremamente exaustos. No fim, o que impede o diálogo é essa barreira invisível onde ninguém quer ser o primeiro a baixar a guarda e dizer "Eu também não sei o que fazer com o que estou sentindo".

 

Considerando que muitas dores são silenciadas no ambiente familiar, de que forma a ausência de validação emocional pode contribuir para o agravamento de quadros de ansiedade, depressão ou até comportamentos autodestrutivos?


A ausência de validação é um dos maiores gatilhos para o desamparo. Quando uma dor é minimizada com frases do tipo "isso é frescura", a pessoa entende que o que sente é errado e não deveria ocupar esse espaço. Isso gera um isolamento confuso, se eu não posso falar, eu começo a atuar, a ansiedade vira pânico, a tristeza vira depressão e a dor emocional acaba saindo pelo corpo em comportamentos autodestrutivos. É o resultado do pensamento "o que eu faço com tudo isso?".

 

Diante da permanência desses conflitos ao longo das gerações, o que ainda impede as famílias brasileiras de desenvolverem uma cultura de escuta, acolhimento e diálogo aberto sobre saúde mental?

 

Temos uma herança cultural forte do "lavar a roupa suja em casa". No Brasil, o cuidado muitas vezes é confundido apenas com a provisão material, se tem comida na mesa e escola paga, está tudo bem! Mas precisamos considerar também questões sociais de classe, raça e gênero que atravessam essas famílias. Existe uma dificuldade histórica em entender que afeto e escuta são necessidades tão básicas quanto a alimentação, e mudar isso exige quebrar ciclos de gerações criadas na base da repressão.


Ao observar a atualidade dos temas abordados na música, como a psicologia explica a permanência de padrões familiares marcados pelo silêncio, pela incompreensão e pela dificuldade de lidar com o sofrimento emocional ao longo das gerações?

 

A gente tende a repetir o que não foi elaborado. Se um pai não aprendeu a lidar com a própria tristeza, ele dificilmente saberá acolher a do filho, o silêncio vira uma herança mal elaborada. Sem consciência e sem a quebra desse padrão, que muitas vezes só acontece via terapia, a família continua operando no automático, replicando o distanciamento como se fosse o único jeito possível de conviver.

 

A música pode funcionar como instrumento de reflexão sobre conflitos familiares e questões emocionais? Como os elementos musicais como melodia, ritmo e interpretação potencializam o impacto emocional da letra?

 

A música fala do que o coração está cheio, ela funciona como um espelho. A melodia e o ritmo acessam o nosso sistema límbico, a parte do cérebro que processa emoções, antes mesmo de entendermos a letra. Um ritmo mais denso ou uma interpretação vocal sofrida geram identificação imediata, a música valida o que sentimos. Quando ouvimos alguém cantar exatamente o que passamos, paramos de nos sentir estranhos e passamos a nos sentir vistos e pertencentes. É terapêutico porque dá contorno ao caos interno.

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