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Aplausos para as vozes atrás da cortina

  • Foto do escritor: Maju Bernardo
    Maju Bernardo
  • 7 de abr.
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 19 horas

Dita (Jeniffer Nascimento) em Êta Mundo Melhor! cantando nos bastidores. Foto: Arquivo da TV Globo
Dita (Jeniffer Nascimento) em Êta Mundo Melhor! cantando nos bastidores. Foto: Arquivo da TV Globo

Na porta do teatro, a fila andava devagar. Luzes acesas, cartazes brilhando, gente bem vestida esperando pelo espetáculo. No palco, a plateia queria emoção, potência e música boa. Mas, durante muito tempo, não queria ver de onde vinha aquela voz.


A história da indústria cultural sempre soube lucrar com a arte negra. O problema é que, quase sempre, quis esconder o artista negro. Era confortável consumir o ritmo, a dança, a criatividade e a força da cultura preta desde que ela viesse “embranquecida” para o público. A voz podia ser negra. O corpo, não.


Durante os anos de ouro do rádio e dos primeiros programas de televisão, não era raro que cantores negros ficassem atrás das cortinas enquanto artistas brancos apareciam diante das câmeras dublando suas músicas. A lógica era cruel e simples: aproveitar o talento sem permitir o protagonismo. O racismo estrutural moldava o entretenimento como quem escolhe quais rostos merecem aplausos e quais devem permanecer invisíveis.


E talvez a violência maior estivesse justamente nisso: o apagamento vinha acompanhado da admiração. Gostavam da música, mas rejeitavam quem a criava. Consumiam a cultura negra enquanto afastavam pessoas negras dos espaços de prestígio.


A cantora Elza Soares conheceu esse cenário de perto. Em diferentes momentos da carreira, enfrentou clubes que não aceitavam pessoas negras em seus espaços. A contradição parecia absurda: queriam ouvi-la cantar, mas não aceitavam sua presença. Como se a arte pudesse entrar pela porta da frente, enquanto o artista precisasse permanecer do lado de fora.


No teatro e no audiovisual, a exclusão ganhou outras formas igualmente violentas. A prática da blackface, marcada por atores brancos pintando o rosto para representar pessoas negras, transformou corpos pretos em caricaturas. Não bastava negar oportunidades a artistas negros; era preciso também ocupar seus papéis, distorcendo suas histórias e reforçando estereótipos racistas para o entretenimento do público.


Décadas se passaram, mas os ecos desse passado ainda atravessam os corredores da cultura. O ator Jamie Foxx relatou que, em seu primeiro contato com o teatro universitário, foi impedido de aparecer em cena por ser negro. Sua voz poderia ser ouvida. Seu rosto, não visto. A história parece antiga demais para ser recente, mas é recente demais para ser esquecida.


E há algo inquietante nisso tudo: o racismo na indústria cultural nunca foi apenas sobre exclusão. Foi também sobre controle. Controle de narrativa, de imagem e, principalmente, de dinheiro. Enquanto artistas negros criavam tendências, movimentos culturais e linguagens artísticas inteiras, o reconhecimento e o retorno financeiro frequentemente permaneciam nas mãos de pessoas brancas.


Hoje, quando discussões sobre representatividade ganham força, ainda existe quem trate o tema como exagero ou “modismo”. Mas representatividade nunca foi apenas aparecer na tela. É ter autonomia sobre a própria história. É ocupar espaços de decisão. É garantir que pessoas negras não sejam apenas inspiração estética para a indústria, mas protagonistas dela.


Produções recentes mostram como esse debate segue atual. Obras como Êta Mundo Melhor! ajudam a ampliar a reflexão sobre desigualdade, humanidade e pertencimento, reforçando como a arte pode funcionar também como denúncia social e instrumento de transformação. Porque, no fim, a cultura não serve apenas para entreter: ela revela quem a sociedade escolhe enxergar.


Talvez seja justamente por isso que a presença negra incomode tanto alguns espaços até hoje. Porque quando artistas negros ocupam o palco com seus próprios nomes, rostos e histórias, deixam de ser apenas vozes escondidas atrás das cortinas. Tornam-se autores da própria narrativa.


E uma vez que alguém finalmente pisa no centro do palco, fica difícil aceitar voltar para trás dele.



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