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A sombra da escrita censurada: a estratégia Cassandra Rios na Ditadura Militar

  • Foto do escritor: Pietra Nascimento
    Pietra Nascimento
  • 2 de abr.
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Como Cassandra Rios, pioneira na literatura erótica e LGBTQIAP+, enfrentou censura severa na Ditadura Militar com o pseudônimo masculino, Oliver Rivers.


Foto: Vânia Toledo
Foto: Vânia Toledo

Durante a Ditadura Militar, a publicação de livros e revistas era fortemente controlada e censurada, e obras consideradas “imorais” ou subversivas eram frequentemente proibidas. Isso abriu espaço para que escritores e artistas da época buscassem formas alternativas de expressar suas ideias e transmitir mensagens ao público. O professor e historiador João Teófilo afirmou que a ditadura militar não inventou a censura, mas a aperfeiçoou para defender a chamada “moral e os bons costumes”, resultando em um cenário no qual se expressar havia se tornado uma atividade de risco.


O uso de pseudônimos, por exemplo, foi uma alternativa utilizada para proteger a imagem de jornalistas, intelectuais e escritores. Julinho de Adelaide, de Chico Buarque; Juruna, do historiador e escritor Luiz Felipe de Alencastro; ou até Pedro Tierra, do poeta e militante Hamilton Pereira da Silva. Entre nomes e narrativas, havia a tentativa de driblar um sistema que os limitava cada vez mais.


E foi dentro dessa história que apareceu Cassandra Rios. Ou melhor, Oliver Rivers. A escritora paulistana, pioneira ao escrever sobre temas como a homossexualidade feminina e a literatura erótica no Brasil, conquistou grande público e popularidade, mas também atraiu a atenção da repressão.


Em 1976, quatorze de seus livros foram censurados em apenas seis meses, e ela teve de fechar sua livraria, entrando em falência. Mas é nesse momento que acontece a reviravolta: o pseudônimo Cassandra dá lugar a Oliver.


Cassandra Rios: as obras de uma escrita censurada

Há quem diga que Cassandra Rios é sinônimo de liberdade ou que ela “atravessou a ditadura civil-militar brasileira defendendo a livre expressão e o direito de existir para além da heteronormatividade”, como afirma a historiadora Kyana Vieira, responsável pela curadoria da exposição “Cassandra faz 90 anos”, no acervo do Museu Bajubá, em São Paulo. Uma coisa é nítida: Cassandra é mais do que uma história “por trás da cortina”.


Começando sua carreira aos 16 anos, a autora carregava consigo o pioneirismo de escrever o primeiro romance de temática lésbica a alcançar repercussão nacional com o livro Volúpia do Pecado, em 1948. Assim surgiu Cassandra Rios, pseudônimo adotado por Odette Rios ao longo de sua trajetória literária. O que começou com a ajuda da mãe para publicar seu primeiro livro se transformou em algo inédito para a época: uma escritora de romances eróticos entre mulheres que venderia 1 milhão de exemplares, marca alcançada em 1970, superando autores populares de seu tempo, como Jorge Amado, Clarice Lispector e Érico Veríssimo.


Com obras como Carne em Delírio (1948), Nicoletta Ninfeta (1950), A Paranóica (1969), Crime de Honra (2005) e muitas outras, Cassandra se tornou uma das poucas escritoras da década de 1970 a viver exclusivamente da venda de seus livros, sem nunca ter exercido outra profissão. Mas foi também nessa época que, assim como muitos outros artistas e intelectuais, ela passou a ser perseguida e retirada de circulação, fazendo com que hoje seja difícil encontrar seus mais de 50 livros em livrarias e sebos. Ainda assim, o pioneirismo e a importância de Cassandra para a construção de uma literatura homoerótica entre mulheres no Brasil permanecem até hoje. Mas em que momento o nome Cassandra vira Oliver?


O outro nome, a outra escrita: Oliver Rivers

Durante a Ditadura Civil-Militar, a censura à obra de Cassandra Rios também impactou diretamente sua sobrevivência, já que seus livros e direitos autorais eram sua principal fonte de renda. Em entrevista ao portal Fora de Cena, a pesquisadora das relações entre gênero, sexualidade e história da literatura brasileira Kyara Vieira relatou que havia uma perseguição constante às obras de Cassandra, o que a levou a “buscar outros meios de se sustentar e a vender quase todo seu patrimônio, chegando a uma situação financeira bastante delicada”. Dessa forma, em meio ao controle dos costumes e ao apagamento no campo literário, também marcado por relações de poder e pelos critérios de construção do cânone, a produção de Cassandra foi marginalizada.


E é nesse cenário que, após ter muitas de suas obras censuradas em apenas seis meses, Cassandra encontrou uma forma de burlar esse sistema, continuar publicando e sobreviver financeiramente. Por meio de colaborações em revistas e jornais, ela passou a usar o pseudônimo masculino Oliver Rivers, conseguindo driblar a censura e manter seus textos nas prateleiras.


Segundo a sobrinha Liz Rios, usando o pseudônimo masculino, Cassandra conseguia publicar e vender seus livros eróticos, mostrando que a perseguição atingiu mais a autora do que a obra em si. “Pornografia é a intenção deliberada de chocar [...] é o sexo pelo sexo. Nos meus livros, o sexo só acontece em função do amor, para realizá-lo plenamente e sem preconceitos”, esclareceu a escritora em entrevista à revista Realidade.


Para Cassandra, o uso de pseudônimos estrangeiros e masculinos era como “ser obrigada a prostituir” sua arte, porque não era sobre os livros, mas sim sobre “a escritora que na época mais vendia”. Assim, ela utilizava pseudônimos como Rivers, Storm, Rivier, Fleuve, percebendo que autores com nomes tradicionalmente masculinos e estrangeiros eram vistos de forma diferente pelos censores, passando, muitas vezes, despercebidos. Kyara afirma que a escrita de Cassandra possibilitou que “as pessoas LGBTQIA+ estivessem no centro da narrativa e percebessem que não estavam sozinhas no mundo”.


A escritora, que nos anos 1990 ganhou um programa na Rádio Bandeirantes e chegou a se candidatar a deputada estadual em 1986 pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), tornou-se um marco da literatura brasileira nas discussões sobre sexualidade e censura. Sua trajetória se encerrou com a coincidência simbólica de sua morte em 8 de março de 2002, Dia Internacional da Mulher. A escolha do nome Oliver Rivers revela o paradoxo entre sucesso e invisibilidade pessoal na vida de Cassandra, mostrando como vozes marginalizadas precisaram adotar estratégias para existir em uma sociedade que tentava silenciá-las.

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