Clarice Lispector ressurge como refúgio para uma geração cansada da superficialidade
- Maria Eduarda Camargo

- 2 de abr.
- 6 min de leitura
Atualizado: há 19 horas
Em sétimo lugar entre os livros mais vendidos do Brasil, 'A Hora da Estrela' torna-se ferramenta de autoconhecimento

Em um determinado momento do dia, você para de rolar o scroll infinito das redes sociais e sente, mesmo que por um minuto, um cansaço que não sabe de onde vem. Isso acontece devido à quantidade de conteúdos e informações, muitas vezes vídeos curtos, que você consumiu em um pequeno espaço de tempo. Cansado de tanto, mesmo sem ter feito nada além de olhar para uma tela, surge a necessidade de uma sensação diferente. Foi então que a literatura reapareceu com mais força, como uma possibilidade para a Geração Z.
O que parecia ser apenas nostalgia se mostra uma necessidade que vem de um lugar mais profundo. Apenas em números, o setor editorial brasileiro cresceu cerca de 13% no número de empresas entre 2023 e 2025, o que gerou mais de 70 mil empregos diretamente. Ainda em 2025, o Rio de Janeiro foi nomeado a Capital Mundial do Livro pela UNESCO, e autores como Clarice Lispector e muitos outros clássicos da literatura voltaram a circular entre jovens impulsionados por redes como o TikTok.
Embora a leitura não seja uma prática consolidada no país, com cerca de 29% dos brasileiros analfabetos funcionais, esse crescimento não vem de um investimento do mercado, e sim de uma busca sincera pela própria identidade.
Uma geração cansada de tanta mudança
Nas últimas décadas, a forma de consumir informação passou por uma transformação significativa. Se antes o acesso era mediado por horários, canais e limitações físicas, hoje ele é contínuo, imediato e totalmente inesgotável. A chegada da internet, liberada inicialmente para uso comercial em 1995, foi o ponto de partida para um acesso mais amplo ao conteúdo e para mudanças na forma como ele passou a ser absorvido.
A sociedade passou da televisão compartilhada por uma família inteira para uma tela que cabe no bolso da calça e acompanha o indivíduo em todos os lugares. Nesse percurso, as informações se tornaram cada vez mais rápidas, superficiais e descartáveis. Vídeos curtos, notícias quentes e múltiplos estímulos ao mesmo tempo criaram um ambiente em que tudo disputa por atenção, uma atenção que dura pouco. Como consequência, surge uma sensação de esgotamento que não está necessariamente ligada ao esforço físico, mas ao excesso de estímulos recebidos diariamente.
Segundo a psicóloga Daniela Santos, essa sensação, mesmo diante de tanta informação, não é exatamente nova. Na verdade, assume novos contornos na contemporaneidade. Ela explica que esse cenário se relaciona diretamente com o que o sociólogo Zygmunt Bauman definiu como “modernidade líquida”. “O termo vem de uma sociedade onde os vínculos se tornaram frágeis e transitórios. É essa ‘liquidez’ que gera insegurança e sensação de vazio, iniciando a busca por relações sólidas e a busca por identidade. Amizades verdadeiras, relações estáveis e significativas e a busca pela sensação de pertencimento”, explica a psicóloga.
Para Daniela, a leitura ressurge pois oferece justamente um movimento contrário à velocidade das relações atuais. “Enquanto o mundo atual incentiva consumo rápido, a leitura exige atenção, reflexão e tempo, trazendo benefícios como ampliação do vocabulário emocional, redução do isolamento emocional e contribuição para o desenvolvimento de empatia ao entrar na perspectiva de personagens. A leitura permite não apenas sentir a instabilidade, mas entender as suas causas.”
Macabéa, sua inocência e 'É Tempo de Morangos'
"Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou. Quem era, é que não sabia.” - A Hora da Estrela.
A frase de Macabéa, personagem principal do livro 'A Hora da Estrela', atravessa décadas porque continua dialogando com um sentimento muito presente nos dias de hoje: a dificuldade de compreender a própria identidade em meio ao excesso de influências.
Publicada em 1977 por Clarice Lispector, a obra acompanha uma jovem marcada pela invisibilidade, pela solidão e por uma existência silenciosa, mesmo em uma época bastante diferente da vivida hoje. É nessa mesma narrativa que a obra se torna algo sólido de se consumir, não como uma história distante, mas como um espelho.
Não por acaso, o livro aparece entre os mais vendidos do país, em posições de destaque em listas recentes, como a da revista Veja. A presença de uma obra introspectiva, escrita há quase cinquenta anos, entre os livros mais procurados atualmente aponta para um movimento que vai além do mercado editorial.
Para a doutoranda em estudos de cultura e interartes e autora do livro ‘É Tempo de Morangos’, Bruna Martiolli, essa identificação acontece porque a literatura oferece linguagem para sentimentos que muitas vezes ainda não foram compreendidos. “A literatura não só ajuda, como muitas vezes inaugura a possibilidade de compreender a própria dor e identidade. Quando a gente lê, encontramos palavras para aquilo que ainda não tinha nome dentro da gente. E isso é transformador”, afirma.
Segundo Martiolli, que traz no título de seu livro a frase que encerra a história de Macabéa, “Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos”, a conexão com personagens e histórias cria uma experiência de reconhecimento emocional difícil de encontrar em outros espaços. “No meu livro, eu falo muito sobre esse lugar da escrita e da leitura como espelho e travessia. A literatura cria um espaço seguro onde podemos sentir sem precisar nos defender o tempo todo. É como se alguém dissesse: ‘eu também senti isso’ e, de repente, a nossa dor deixa de ser solitária”, complementa Bruna.
Essa experiência não se limita à teoria. Em um momento de desconexão pessoal, a própria Bruna encontrou na leitura uma forma de reorganizar o que sentia. “Teve um momento muito marcante na minha vida em que eu me sentia completamente desconectada de mim mesma em 2022. Eu não sabia exatamente o que estava sentindo, era uma mistura de tristeza, vazio e uma sensação constante de não pertencimento. Foi através da leitura de autoras que escreviam com muita honestidade emocional (Lygia, Conceição, Carolina Maria de Jesus). Eu lembro de fechar um livro e pensar: ‘então é isso que eu estou sentindo’. Não era só identificação, era quase um reconhecimento profundo.”
Em uma geração acostumada com conteúdos que desaparecem em segundos, a literatura permanece. E é justamente nessa permanência que está sua força. Diferente de um consumo infinito e esquecível, os livros continuam atravessando décadas porque carregam experiências humanas que não envelhecem junto com a tecnologia, mas permanecem como uma ferramenta de reflexão e mudança. Não só na vida individual, mas também na sociedade como um todo.
A educadora social Sara Acioli explica que a literatura pode sim ser vista como uma ferramenta coletiva de transformação. “A literatura é uma poderosa ferramenta de transformação social porque vai muito além do ato de contar histórias. Ela funciona como um motor de mudança que promove a humanização e a empatia, pois nos coloca no lugar do outro e amplia nossa sensibilidade ética”, explica.
Além disso, ela afirma que o contato com os livros também fortalece a identidade e o pensamento crítico, especialmente em grupos historicamente invisibilizados. “Os livros desempenham um papel fundamental ao dar voz e fortalecer a identidade de grupos historicamente esquecidos, permitindo que se reconheçam e tenham sua autoestima valorizada nas narrativas.”
A educadora relembra experiências em projetos sociais realizados em Manaus, sua cidade natal, onde o acesso à leitura impactou diretamente a vida de crianças e adolescentes, aumentando a autonomia deles, melhorando o desempenho nas escolas e fazendo com que eles se sentissem protagonistas de suas próprias vidas.
Em um cenário dominado pela rapidez, a leitura de um clássico também exige algo que hoje se tornou raro: o foco em uma única atividade. “Para a geração digital, ler essas obras exige uma desaceleração consciente e um foco profundo que fazia parte da experiência das gerações anteriores”, explica Sara. “Ler um clássico hoje é como um treino para o cérebro: se você não tiver a calma necessária para mergulhar na escrita, acaba desistindo antes mesmo de conseguir aproveitar a história.”
Por fim, a busca por clássicos da literatura vem de uma necessidade que, com o tempo, se transforma em um caminho capaz de abrir portas para dentro de si. Personagens como Macabéa e tantos outros continuam voltando porque carregam algo que o tempo não conseguiu tornar ultrapassado: a experiência humana em sua forma mais crua.



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